Quando olhamos para o céu à noite, o que vemos são estrelas isoladas. Mas quando as envolvemos em uma narrativa, elas se transformam em constelações. Alguém, em algum momento, decidiu traçar linhas invisíveis entre pontos de luz distantes e lhes dar um nome e uma história. A partir daí, essas constelações são uma história compartilhada.
Na América Latina, existem milhares de iniciativas, projetos, coletivos, artistas e ativistas que trabalham a partir de seus territórios para transformar o mundo em que vivemos, mas o que acontece quando lhes damos um caminho comum, uma palavra, um conceito? Embora estejamos em territórios diferentes, podemos construir narrativas compartilhadas.
Em 2025, selecionamos 10 projetos de toda a América Latina para nossas Bolsas de Exploração Narrativa. Trata-se de uma espécie de caixa de areia criativa que oferecemos para que os projetos possam brincar, explorar e construir em torno de um conceito comum. Em 2025, esse conceito foi a interconexão.
Os projetos selecionados nesta edição receberam uma bolsa de US $7.000 cada um para concretizar uma proposta criativa que colocasse em destaque o vínculo que nos une como seres humanos, animais e a natureza. Além de acompanhamento e orientação, durante 8 meses os projetos se dedicaram a explorar como contar uma história capaz de mudar a forma como entendemos esses vínculos.
O Inspiroscopio, a última sessão coletiva, foi o espaço para apresentar os resultados da exploração após os 8 meses de trabalho. Ao final da exploração e colocando em prática a interconexão, os projetos se organizaram em duplas para apresentar uns aos outros os resultados. Dessa forma, cada relato se conectou de um extremo a outro da América Latina, tecendo laços muito vivos e presentes em todo o nosso território. Reviva todos os detalhes aqui.

Em julho de 2024, a prefeitura de Recife concedeu quatro parques públicos à iniciativa privada por trinta anos. A justificativa oficial foi “modernização” e “redução de custos”. A consequência real recaiu sobre as comunidades, já que seus espaços de encontro coletivo começaram a se transformar em ambientes de consumo e exclusão.
Viva Sem Concessão decidiu contestar essa narrativa. Sua proposta reafirma os parques como locais de diversidade, convivência e construção democrática. Porque uma cidade que habita e cuida de seus espaços comuns é uma cidade que aprende e pratica ativamente o que é ser comunidade.
Rebeca Lane, Audry Funk e Masta Quba são cantoras reconhecidas na América Central que já sabiam uma coisa que os algoritmos preferem ignorar: as vozes das mulheres e das pessoas de identidades não binárias não deveriam existir apenas no dia 8 de março. A indústria cultural lhes dá visibilidade um dia por ano... mas as desliga no resto do tempo.
Este projeto é uma aliança feminista musical que desafia essa lógica, construindo uma comunidade entre artistas e públicos de forma contínua, fora das datas simbólicas e dos calendários de conveniência. A questão central do projeto é profunda: ¿De que forma nos organizamos como comunidade para que as vozes não dependam de autorizações nem de datas? Elas fazem isso por meio da música. Ouça a primeira coletânea delas, “No es moda”:
E se a neurodiversidade e a diferença não fossem vistas como um problema, mas sim como uma solução? A Co-laboratoria Artidivergente constrói mundos possíveis imaginados por corpos neurodivergentes e bichas no Equador. Para eles, o trabalho narrativo é uma trama de vozes, imagens e afetos que emergem do encontro, da escuta e da criação compartilhada. Por meio de histórias em quadrinhos, sua narrativa gráfica propõe uma inversão radical: uma história pós-apocalíptica onde a neurodiversidade é a única forma de nos salvar. A diversidade como potência para perceber e habitar o mundo de novas formas.
Receitas Ponte é um projeto colaborativo que valoriza a cozinha como um espaço de encontro e memória migratória na Cidade do México. Em encontros culinários coletivos, são compartilhadas receitas tradicionais repletas de histórias de origem, movimento e pertença. Este projeto reconhece a diversidade dentro da população migrante, incluindo mulheres, pessoas trans, mães solteiras, jovens e pessoas idosas. Seus espaços coletivos buscam evidenciar visualmente como nos conectamos por meio dos ingredientes e das receitas.
Durante a ditadura de Stroessner, grupos de presos políticos registraram suas vozes, suas ideias e sua resistência em gravações clandestinas. Essas gravações de 1977 são o coração deste projeto, que as resgata e as transforma em uma série de podcasts que combinam testemunho, história e mapeamento sonoro.
O Cativeiro dos Gênios entende que a memória é uma ferramenta muito viva do presente e que trazer a voz do passado para o presente é uma forma de conectar gerações, fortalecer a democracia e transformar o arquivo em uma experiência viva e coletiva.
Os mercados sempre foram como um coração comunitário. Essa é a aposta do M8 Escena em Guadalajara. Com teatro de objetos, debates e instalações coletivas, esse grupo interveio num mercado semanal para transformá-lo em um refúgio criativo para crianças, cuidadoras, migrantes e pessoas de diversas identidades. O projeto destaca o mercado como um espaço de cuidado, resistência e transformação coletiva, onde a vida cotidiana se torna um ato poético e político.
Entre a Costa Rica, El Salvador e a Nicarágua, Palavras Centrakas tece redes autogeridas de expressão viva. Este projeto reúne grupos de artistas, migrantes, pessoas trans e racializadas que forma historicamente excluídas dos espaços de representação e memória na América Central.
Sua proposta é poética e política ao mesmo tempo: pensar, refletir e compartilhar de que maneira habitamos as palavras na América Central e como isso constrói memória em um território marcado pela resistência.
Num bairro periférico de Piedecuesta, La Bellecera vem, há anos, tecendo laços comunitários por meio de orquestras intergeracionais, grupos de mulheres tecelãs, batucadas feministas, oficinas para crianças e muitas outras atividades significativas das comunidade. Toda essa interconexão resgata a memória, o território e a vida a partir do cuidado coletivo.
No âmbito do BEN 2025, este projeto promoveu um bazar de curtas-metragens verticais, onde a interconectividade se manifesta nas práticas cotidianas. A convocatória reuniu curtas-metragens de todo o país e de países vizinhos, que encontraram um espaço comunitário para abordar temas como crises, recursos naturais ou políticas públicas. Foi também uma oportunidade para mostrar como o celular pode ser usado para criar mensagens coletivas.
Em meio à crise econômica que a Argentina atravessa, algumas moradoras de San Telmo se organizaram em um grupo do WhatsApp para fazer compras comunitárias. Evitando os grandes supermercados, elas criaram um circuito que reduz custos, apoia os produtores locais e promove o consumo responsável e sustentável a partir da organização comunitária.
A Conversa é um projeto documental que registra a experiência de compras desse grupo de vizinhas e a apresenta como uma proposta fora da lógica do mercado. A economia solidária sai da teoria para se tornar prática.
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Suraras do Tapajós é o primeiro grupo de carimbó formado exclusivamente por mulheres indígenas da Amazônia. Surgiu a partir do acompanhamento de vítimas de violência de gênero e se tornou um poderoso movimento de resistência cultural no Brasil. Unidas pelo ritmo, elas fundaram a Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós e expandiram seu trabalho para escritórios, feiras e projetos de empoderamento digital.
Para esta edição das BEN, elas contaram sua história num documentário que foi apresentado em sessões comunitárias de cinema-fórum, com objetivo do inspirar novas formas de organização coletiva por meio da cultura e da música.
As Bolsas de Exploração Narrativa (BEN) são uma iniciativa do Inspiratorio para que artistas, ativistas e organizações da América Latina pratiquem o trabalho narrativo a partir de suas próprias perguntas, realidades e necessidades. São um convite para experimentar, testar hipóteses narrativas, errar de propósito e aprender juntas nesse processo.
Todos os anos, as BEN convocam novos projetos, novas vozes, novas hipóteses e propostas alternativas sobre o mundo que queremos construir. E cada um deles se torna mais uma estrela nesta constelação que cresce da América Latina para a América Latina.
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➡️ Se você quiser reviver a sessão completa do Inspiroscopio e saber mais sobre os projetos, clique aqui para assistir à gravação.
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As Bolsas de Exploração Narrativa são uma iniciativa do Inspiratorio e fazem parte do trabalho da Puentes no desenvolvimento do poder narrativo dos movimentos sociais na América Latina.